(Da série: coisas que aprendi na infância)
As nossas crianças infelizmente, não viverão o que vivi.
Naquela época em que morava com minha avó, mãe e tios, eram tempos onde a rua também era nosso quintal e o medo dos adultos se resumia muitas vezes, no perigo dos carros pelas ruas, afinal, os vizinhos eram amigos que ficavam dentro de casa e eram quase da família. Quantos não chamava de "tio" ou "tia" e era tão comum.
Para mim, o carinho às vezes, era até maior.
Quando eu e minhas primas cansávamos dos super-heróis e das meninas, muitas vezes, era a música que nos acompanhava.
Eu morava em Pinheiros, meu bairro preferido em São Paulo, na casa que eu dividia com a vizinha do tal pé de café, lembram?
Em algumas noites, queríamos levar um pouco de música a quem passava, sério!
Nós éramos as artistas e tínhamos que encontrar o nosso público, devo dizer que, o público eram os que passavam na rua.
Dávamos três opções a quem eles escolheriam, o que ouvir e assistir. Levávamos a sério (e vcs vão entender porque). Opções: As Melindrosas, A Patotinha e Gretchen.
Então, íamos parando as pessoas e perguntando:
-oi, você quer assistir a um show? Vc pode escolher.
- é? e quem vai fazer show?
- a gente.
-e o que tem nesse show.
- você pode escolher entre essas opções...
Claro que eles nos olhavam estranhamente, mas antigamente, a vida era menos corrida, menos doida e algumas pessoas, paravam para nos ouvir.
E já informávamos:
- olha, é um show mesmo, são $0,25 e se fôr a Gretchen é 0,50, porque é solo, tudo bem?
Posso dizer que a maioria, olhava, dava uma risada e...topava!
-ta, então primeiro eu quero ver o show e se fôr bom eu pago, pode ser?
Topávamos.
A pessoa escolhia e lá íamos nós, a bordo de rádio, coragem e música.
"Por quê eu não segui carreira, hein"?
O que quero dizer é que essa inocência de mostrar um show (na cabeça da crianças, isso é tudo), fazer o que gosta, ter pessoas que param para ter ver e ainda pagam por isso, são confortos que trago dentro de mim até hoje!
Naquela época, parar para olhar três meninas dançando, inclusive uma rebolando como a Gretchen e não sermos tachadas, nem tachar alguém com malícia, era presente.
Algumas vezes, deixavam os centavos e iam embora com um sorriso no rosto e comentando o tal show com satisfação, em outras, fazendo nos sentir especiais, algumas diziam:
-ah muito bom, agora eu quero ver "As Melindrosas"...
E nós, felizes da vida, nos sentindo verdadeiras artistas, corríamos trocar a fita para um novo "show", ao barulho de mais uma moedinha caindo em nosso potinho...
O que aprendi com tudo isso é que se pode sonhar, que por mais que uma idéia possa parecer estranha, alguém vai parar para te escutar e também, uma coisa que carrego comigo até hoje, é que tudo, ao embalado por música, fica bem mais especial.
Nenhum comentário:
Postar um comentário