Análise da carta de Eric para Jen

Este post é uma análise da carta que Eric enviou para Jen, em papel amarelo, que está entre as páginas 202 e 203. A análise foi feita pelo Brian Shipman, do WhoIsStraka, e aqui encontra-se traduzida livremente. O post original encontra-se no blog dele. Assim como em outras traduções, busquei links em português para as explicações encontradas na Wikipedia e em artigos científicos usados por Brian. Aqui está a transcrição da carta.

Carta de Eric Husch para Jen Heyward

Sobreposições Bíblicas

Seja qual for o propósito, parece haver muitas referências bíblicas ao longo da confissão de Eric para Jen (veja o encarte entre as páginas 202-203) sobre o que realmente aconteceu nas circunstâncias que levaram à morte do tio dele, Zeke. Aqui estão algumas que notei, sem nenhuma ordem específica…

O verdadeiro nome de Eric Husch é Nicodemus John Husch

No Evangelho de João, o fariseu Nicodemos vai até Jesus, escondido na escuridão da noite, para tentar entender quem realmente é Jesus. É aqui, a partir de João 3, que Jesus diz para Nicodemos:

“Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: ‘É necessário que vocês nasçam de novo.’”

Compare isso com uma citação do início de “S.” (pg 5):

“Isso é o que acontece, claro: homens se perdem, homens desaparecem, homens são apagados e renascem”

Note que a carta de Eric aparece imediatamente depois do mergulho de S. no mar, a partir da caverna, no fim da saída para baixo, e sua surpreendente descoberta de que o seu navio de alguma forma nasceu de novo e está lá esperando por ele.

O nome do tio de Eric é Ezequiel

Ezequiel é um livro do Velho Testamento. Muitos comparam a passagem sobre “nascer de novo” em João 3 a esta passagem em Ezequiel 36. Além disso, o poema “A Terra Desolada”, de T. S. Eliot (mencionado por Jen na pg 158 como “A Terra Deserta” – talvez um erro de tradução), faz uma referência a Ezequiel 2:7, na linha 20, de acordo com o próprio Eliot (ver a página 61 desta pesquisa). Ezequiel 2:7 diz:

“Você lhes falará as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes.”

O pai de Eric amava Zeke em “uma relação meio pastor/ovelha perdida”.

O Novo Testamento está repleto de referências a Jesus como o Bom Pastor e as pessoas que ele procura como “ovelhas perdidas”. Em uma parábola do Novo Testamento, um pastor tem 100 ovelhas. Um dia ele nota que uma delas está faltando, então ele deixa as outras 99 enquanto procura por uma ovelha perdida. Quando ele encontra a ovelha perdida, ele a coloca no ombro e comemora enquanto a leva de volta para onde estão as outras 99

Compare isso com o fato de que Zeke deu a Eric cem dólares para voltar para casa. Eric compra dois livros de Straka (Coriolis e Paliçadas da Noite) por cinquenta centavos cada. Cem dólares para ir para casa, um dólar gasto com livros de Straka.

Eric também usa muito a expressão “perdido” para se descrever

  • Perdido em Straka
  • Perdido nos livros
  • Perdido nos estudos

Eric se revolta abertamente contra as convicções religiosas dos pais dele

Ele reconhece a hipocrisia da falta de perdão de seus pais e a falha em dar amor incondicional quando ele mais precisou. Perto do fim da carta, ele risca a palavra “essencialmente”, como uma espécie de alusão de sua rejeição ao fundamentalismo cristão.

Outras Alusões

O Titanic

Zeke deixa Eric fora do barco em Astoria, que foi nomeada em homenagem a John Jacob Astor (fabricante de instrumentos musicais e patrono das artes). Seu neto, John Jacob Astor IV, era o homem mais rico do Titanic e morreu quando o navio afundou.

Parmênides de Eleia (que ensinou Zenão)

Eric termina a carta assim:

“ENTÃO. É ISSO”

“O que é” é o tema do poema Sobre a natureza, de Parmênides.

Parmênides afirmou que há duas formas de investigar o assunto: o que é, de um lado, e o que não é, de outro. Ele argumenta que a última opção nunca é viável porque nada pode não-ser.

Compare com o que Filomela Caldeira disse (NR 2, pg 71):

“Caso Straka tivesse vivido para ver a última revisão desta tradução, provavelmente teria questionado minha escolha por usar oblívio aqui. Sua redação original é traduzida literalmente como não ser, que eu considero sem sentido. Como alguém pode deixar de ser? Se alguém é, é.

A relação de Parmênides com Zenão, que pode ser a fonte para Diários de Tortuga) e Os contos do arqueiro, é intrigante.

Os contos do arqueiro

Is S Reading a Book

Esta postagem é uma tradução livre do artigo “The Archer’s Tales – How to Find It”, escrito por Brian Shipman para o blog dele, whoisstraka. As formatações e links foram mantidos nos mesmos lugares. Exceto que optei por usar links da Wikipedia em português ao invés do inglês, onde o autor utilizou. Neste texto, Brian fala sobre a ideia de um livro dentro de outro, das relações dentro das relações, assim como os círculos de um alvo de tiro com arco ou como as camadas de uma árvore.

Introdução: Contexto

O livro “S.” é um livro dentro de um livro. O livro “exterior” é a história de Eric e Jen, duas pessoas que estão lendo o mesmo livro e, nas margens, estão escrevendo seus pensamentos sobre a obra e também sobre seus relacionamentos. Este livro, “O Navio de Teseu”, é o livro “interior”, e conta a história de S. e sua luta para encontrar sua identidade e se conectar com Sola.

Há outro livro entre os livros exterior e interior – a história de F. X. Caldeira e V. M. Straka. Nós sabemos com certeza que houve uma tentativa de comunicação de FXC para VMS por meio das notas de rodapés e cifras, e estamos razoavelmente certos de que VMS se comunicou com FXC por meio da história em si e nas notas que estes dois trocaram entre si nas margens do manuscrito original.

Dentro dos nossos três livros, temos esse contexto paralelo…

  1. Eric e Jen são dois estranhos que se conectam pela primeira vez enquanto lêem o mesmo livro, e trocam palavras escritas por muitos dias antes de realmente se encontrarem.
  2. FXC e VMS são dois estranhos que se conectam pela primeira vez enquanto trocam cartas e anotações nas margens dos manuscritos de mais de uma dúzia de livros, culminando em O Navio de Teseu. Este último livro confunde as linhas entre o autor e a tradutora, porque não podemos dizer quais partes do texto foram escritas por FXC e quais foram escritas por VMS. É quase como se O Navio de Teseu fosse realmente apenas duas pessoas conversando entre si em forma de história. Considere as páginas 195-196, que tem dois parágrafos contestados por Eric e Jen – um obviamente escrito por VMS e outro aparentemente inserido por FXC. E os dois parágrafos acontecem em um momento em que os personagens no livro estão de mãos dadas – seus dedos entrelaçados – um símbolo para as palavras entrelaçadas de FXC e VMS que compõem O Navio de Teseu. E, é claro, o Capítulo 10 em toda sua controvérsia sobre se as palavras que existem foram escritas por FXC ou VMS.
  3. S. Sola se conectam pela primeira vez enquanto Sola está lendo um livro chamado Os contos do arqueiro.

Estranhos que se conectam por causa, ou mesmo dentro, dos livros – este é o nosso contexto.

Em verdade, ainda há uma quarta história que serve como o livro mais externo de todos – e essa é a história de todos nós que lemos S. Estamos nos conectando uns com os outros enquanto estamos lendo. Você e eu acabamos de nos conectar porque ambos estamos lendo S. Eu me conectei com muitas pessoas, embora nunca tenhamos nos encontrado, pois trocamos tweets e comentários de blogs sobre o S. – nossas próprias formas de escrever nas margens.

Círculos Concêntricos

Essas quatro histórias são como círculos concêntricos. Cada círculo contém dois estranhos que se conectam por meio da palavra escrita. Nós, leitores de S., discutimos o relacionamento de Eric e Jen. Eric e Jen trocam notas sobre FXC e VMS. FXC e VMS se comunicam entre si sobre S. Sola. S. Sola têm um interesse comum em Os contos do arqueiro.

Os contos do arqueiro é o círculo mais interno – o centro. É o meio do alvo criado por esta série de círculos concêntricos.

Target

É curioso que a primeira camada colorida nos alvos de tiro ao alvo é chamada de magpie (N.T. nome do pássaro pega, em inglês) e Straka é o tcheco para magpie (pega). Parece que estamos sendo levados em uma jornada da porção mais externa do alvo para o centro – Os contos do arqueiro.

O autor de Os contos do arqueiro é Arquimedes de Sobreiro. Sobreiro é o nome em português da árvore Quercus suber. Esta árvore, assim como qualquer outra, tem um tronco feito de anéis, onde encontramos novamente nossos círculos concêntricos. O círculo mais externo de um sobreiro é a cortiça, de onde obtemos as rolhas usadas em garrafas de vinho.

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Arquimedes parece ser uma referência a Arquimedes de Siracusa. Arquimedes é conhecido por ter criado o primeiro planetário. Era uma máquina feita de esferas de vidro concêntricas e movida a água, para demonstrar o movimento da lua e dos planetas com precisão. Acredita-se que tenha sido a inspiração para a Máquina de Anticítera. Aqui está uma reprodução moderna…

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Eric Husch escreveu nas margens que ele trabalhou no planetário Mallon da Pollard State University (página 209). Na mesma página, Eric escreveu que ele acha que Moody tem uma cópia de Os contos do arqueiro.

Nós também sabemos sobre a Síndrome de Eötvös (veja nota de rodapé 1 da página 3), em que a sensação de desorientação aumenta à medida em que a vítima se aproxima da linha do Equador, e o inverso implícito, onde a desorientação desaparece inteiramente no ponto mais distante do Equador – o Polo Sul (ou o Norte). Dadas as numerosas referências ao Polo Sul em S., é mais provável que este tenha algum destaque. Uma visão da Terra a partir de baixo, onde o Equador é o círculo mais externo e o Polo Sul é o centro. Temos novamente outro conjunto de círculos concêntricos.

E não esqueçamos a mais visível representação dos círculos concêntricos – a primeira coisa que vemos quando tiramos “S.” da caixa. A capa de O Navio de Teseu, com o navio no seu centro.

E, finalmente (mas certamente não exaustivamente), nós temos a luneta de Redemoinho. Nós vemos no final de O Navio de Teseu que S. a encontra e agora é capaz de ver claramente através dela.

“E enquanto fazem isso, S. vai pegar a velha luneta de Redemoinho no camarim de navegação, onde estava escondida sob os cobertores em que o macaco sujo de preto dorme e ronca”.

S. abre a luneta e olha através dela, vendo uma perfeita realização e ressurreição do xaveco com o que parece ser ele e Sola no timão.

A última sentença do livro menciona que S. fecha a luneta.

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Uma luneta, quando fechada e vista a partir da extremidade onde coloca o olho, revela um conjunto de círculos concêntricos. Quando estes círculos em duas dimensões são expandidos para três, a luneta “ganha vida” e revela o que normalmente não pode ser visto. Uma pista tentadora?

Parece que não podemos escapar desses círculos concêntricos – um alvo de arquearia com um círculo chamado magpie, uma árvore chamada Sobreiro e o homem que inventou o primeiro planetário, Arquimedes. Uma visão do Polo Sul. A capa do livro. A luneta. O imperativo simbólico parece claro – nós devemos seguir e acertar o círculo mais interno. Na mosca. Os contos do arqueiro.

S. e Sola: Dois leitores. Dois escritores.

A coisa mais bonita sobre os nossos círculos concêntricos é que eles são todos iguais. Cada movimento para dentro pode ter um rótulo diferente, mas ainda tem as mesmas características. Cada um dos nossos círculos, neste caso, é representado por dois estranhos conectando-se e formando um relacionamento puramente por meio da palavra escrita. E suas palavras escritas estão inicialmente discutindo as palavras escritas do próximo círculo interno.

Se nossos círculos concêntricos permanecerem da mesma forma conforme nos movemos para dentro, então Sola S. não devem inicialmente se encontrar pessoalmente. Eles devem se encontrar puramente por meio da palavra escrita, porque ambos estão lendo o mesmo livro. Quando conhecemos Sola pela primeira vez, ela está lendo Os contos do arqueiro. Devemos concluir, então, diante da confusão inicial, que S. também está lendo este livro e eles não se encontraram pessoalmente.
Não faz sentido? Considere isto. Quando nós (e S.) encontramos Sola pela primeira vez, ela está lendo. E ela está fazendo isso sem ser notada, em uma taverna pública cheia de pessoas.

“Estranho que esteja sozinha ali; só há um punhado de outras mulheres, todas elas tendo o comércio em mente, passando por entre os grupos de marinheiros à procura de negócios. Ainda mais estranho que nenhum daqueles homens, repletos de coragem abundante, esteja com a atenção voltada para a jovem leitora” (pg. 17).

Por que é que ninguém, exceto S. a nota? Será que Sola não está realmente sentada na taverna, mas ela está lendo sobre a taverna em Os contos de arqueiro. Ela está totalmente absorta na história, e a taverna e seus personagens são apenas uma mera manifestação “física” do que ela está lendo. Ela então “nota” S. na taverna e S. se aproxima. Ela nota S. não porque ele está lá realmente na taverna, mas porque ele também está lendo Os contos do arqueiro.

Imagine isso. Você acha um livro chamado Os contos do arqueiro e você o pega para ler. Você vira uma página e lê sobre uma taverna cheia de pessoas. Então você nota que alguém escreveu nas margens – duas pessoas, na verdade. Dois estilos de caligrafia. E você lê uma conversa entre um homem e uma mulher que estão fazendo sua primeira conexão entre si, deixando essas anotações no mesmo livro. Então agora uma mesma página conta duas histórias, mas elas se misturam tanto que se tornam uma. O vestido verde-esmeralda de Sola na taverna (pg 17) tem o mesmo comprimento da fita verde que serve de marca páginas de Os contos do arqueiro (pg 243).

Parece familiar?

O livro “S.” é um livro, mas também é O Navio de Teseu e as notas nas margens por Eric e Jen e também as trocas codificadas de FXC e VMS.

E se O Navio de Teseu (por si só uma conversa escrita entre FXC e VMS) é um livro apresentado em um único tipo de letra, mas na realidade são duas histórias? E se for Os contos do arqueiro e as notas das margens de S. e Sola, tão misturadas que não podemos considerar uma separada da outra?

Lembra de Stenfalk? Ele disse que se lembra de ter lido a história do povo de K__ e suas cavernas e desenhos em Os contos do arqueiro (pgs 149-150). Logo depois, S. se encontra naquelas cavernas olhando para aqueles desenhos. Por que? Porque ele está lendo sobre isso. Stenfalk também conta uma história que ele se lembra sobre um lugar chamado Cidade do Inverno (pg 148). Depois, S. se encontra ele mesmo na Cidade do Inverno. Por que? Porque naquela época ele estava lendo sobre a história que Stenfalk se lembrava. Sola o encontra na Cidade de Inverno, encontrando suas notas nas margens e se reconectando com ele depois de uma ausência prolongada.

S. e Sola escrevem um ao outro em forma de história nas margens de Os contos do arqueiro, enquanto se apaixonam e anseiam por se encontrar fisicamente. Esta história misturada é Os contos do arqueiro e suas margens. Isso cria O Navio de Teseu (incluindo o prefácio e as notas de rodapé), que é realmente FXC e VMS escrevendo um para o outro, se apaixonando e desejando estarem juntos. Este livro, mais suas margens por Eric e Jen formam “S.”, enquanto eles se apaixonam e desejam se conectar no mundo real – o que finalmente eles fazem.

Este é “S.” – o conto de um arqueiro que a princípio só pode atingir o círculo mais externo do alvo. Mas depois de muita prática, sua mira se torna melhor e suas flechas começam a chegar perto do centro do alvo. Talvez esta teoria seja próxima da realidade. Talvez esteja longe do centro. Você decide.