https://ilhadeobsidiana.wordpress.com/2019/01/11/capitulo-10-final-original-de-straka/
Que o capítulo 10 de O Navio de Teseu foi reescrito por FXC, isso não é novidade. Afinal, foi explicado no prefácio do livro que parte do final original escrito por Straka se perdeu na ocasião da possível morte dele em Havana, quando as folhas com o manuscrito voaram pela janela aberta. Restou a FXC reunir as páginas restantes e escrever aquele final que conhecemos.
Acontece que, desde o lançamento do livro, tem surgido pela internet vários casos de pessoas que receberam pelos correios envelopes com possíveis versões originais/alternativas do capítulo final de ONDT. Possivelmente os boatos que Eric comenta nas margens do prefácio, na página xiii:
“Então esse final é de FXC, não de Straka.
“Ninguém sabe. Há algumas versões do Cap. 10 por aí. Algumas são falsificações evidentes. Um boato na internet diz que Moody conseguiu recentemente uma que parece bem crível. Isso acabaria comigo.”
“Opa. Olha o exagero.”
Entre os blogs que estudam a obra como um todo, apenas uma destas versões é considerada a ofcial, uma vez que o próprio autor, Doug Dorst, compartilhou em seu perfil do Twitter:
“Caso você não tenha visto: O final original de Straka para O Navio de Teseu pode ter sido encontrado”, postou o escritor no dia 9 de julho de 2014, juntamente com um link para uma postagem no suposto Tumblr da Jen.
Na postagem feita por ela, há uma foto de um calhamaço de papel datilografado em tcheco, em cima da mesma mesa já vista anteriormente quando ela postou a foto do obituário de Straka. A estudante não fala nada, mas em seguida posta vários prints um email recebido por ela enviado por uma pessoa chamada I. Svobodová, que tanto pode ser a PhD em linguística tcheca Ivana Svobodová, quanto a professora portuguesa e também linguística Iva Svobodová, que possui uma relação muito íntima com o Brasil, segundo seu currículo. Os prints correspondem à tradução para o inglês do material original em tcheco.
O mais curioso nestes screenshots que ela compartilhou é que nas margens da imagem, atrás da janela onde está aberto o email, é possível ver detalhes do site Eötvös Wheel, sobretudo no texto sobre os candidatos a Straka, em que vemos a capa do livro Os Sapatos Alados de Emydio Alves. Isso alimenta a teoria de que o site na verdade é gerenciado por Jen ou pelo Eric, e não pelo J. W. Dominguez.
Voltando a esse suposto original do capítulo 10 escrito por Straka, a pessoa responsável pelo site Who Is Straka? observou que esse material compartilhado por Doug Dorst e pela Jen corresponde bem às anotações nas margens da página 452, entre Eric e Jen, quando eles conversam sobre o original que receberam de Ermelinda Pega:
“Fico muito feliz por Filomela nunca ter aberto aquele envelope”
“Sim. Eu tenho pesadelos com a versão dele. Todas aquelas mulheres…”
“Eu não acho que ele estivesse tentando chocar os leitores. Acho que realmente tinha falhado com todas elas.”
Mystimus, o responsável pelo site, ainda aponta a forma interessante como Jen e Eric conseguiram o manuscrito original, que estava no envelope lacrado que Ermelinda Pega recebeu de Desjardins nos anos 1970, conforme margens da página 422:
“Arturo mandou e-mail. Disse que foi um francês que deu o envelope a ela. Em meados dos 1970. Ambos gostaram dele – acharam gentil e educado, embora não falasse muito. Filomela disse que ele “se movia com grande tristeza”. Tem que ser Desjardins. Ainda sofrendo depois de o que? 15 anos? 20?”
“Ele e Signe na verdade também nunca tiveram chance. Não uma de verdade, pelo menos.”
Desjardins presumidamente recebeu o envelope de sua esposa, Signe Rabe (pg. 361), que supostamente seria filha de V. M. Straka com Amarante Durand.
Dito isso, segue abaixo a tradução do material que a Jen recebeu. O texto do suposto capítulo original de Straka substitui tudo que está em O Navio de Teseu a partir da terceira palavra da segunda linha da página 451 em diante.
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VLP00002304954988
Trabalho: 00273
Para: Heyward, J
Querida Heyward,
Estou te enviando o texto traduzido. Espero que isto lhe seja útil.
Espero ter notícias suas.
Saudações,
I. Svobodová
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Tradução Tcheco/Inglês de EPH-9990 (00273)
destruída. Mas deve circular. Não deve ser contida. E Vévoda é o único que a contém. Assim, a tarefa permanece. Quando ele e Sola a completarem, eles subirão estes corredores e ressurgirão no mundo. Pode haver Agentes à espera, mas haverá mais trabalhadores, e todos eles carregarão machados e cinzéis e outros implementos que eles podem usar para destruir estes barris e deixar o vinho preto…
Ele cheirou: um cheiro rançoso cortando o olfato e a terra através da névoa azul-escura. Ele o reconheceu no momento em que sentiu o puxão da perna da calça. O macaco, de alguma forma, parecia estar bem mais vigoroso e de sua boca desdentada saiu uma vocalização de um tipo que S. nunca ouviu antes, livre de provocação, condescendência ou irritação. Soa – e aqui, S. se pergunta se o ar nas adegas está enevoando a sua mente – como se o macaco estivesse imitando a execução das notas no último apito de S. para Sola.
O macaco levanta uma das mãos, mostrando a S. um pedaço irregular de uma rocha cinza-escura, girando-a para frente e para trás como se esperasse que a luz do bulbo acima deles capturasse uma de suas facetas e a fizesse brilhar. Quando S. sussurra – eu não entendo – , o macaco vai direto para o próximo barril e bate a rocha contra a superfície, circundando a tampa do barril. Os sons são altos, afiados e ecoantes; todo mundo na adega pode ouvir, e já ouviu. S. cambaleia em direção ao macaco, para agarrá-lo, mas pega apenas um tufo de pelos que fica na sua mão. Então, com força e destreza surpreendentes, o macaco retira a tampa do barril, que estava frouxa, e derrama o vinho negro, que arqueia ondulando para fora, formando uma poça na terra comprimida. O cheiro rodopia em torno dele… sagrado. O espírito vive. Ele ouve um zumbido débil e eufônico de vozes e se aquieta para escutar mais de perto. E o brilho azul-escuro na superfície das poças – isso, isso é a coisa preciosa que captura a luz. Ele forma uma concha com as mãos, para provar…
O chamado de socorro de Sola, e um grito masculino. Qual veio primeiro? Há quanto tempo ele está vacilando embriagado? Há quanto tempo ele está parado?
Esta é a escolha que ele faz: ele corre para frente, mais profundamente na adega, em direção a ela. Ele deixa para trás o macaco, que dispara para o próximo barril. Os sons de rocha sobre o carvalho começam novamente.
Ele tropeça quando o caminho repentinamente mergulha, quebra o ombro ao bater no aro de um barril e se esparrama, ralando o chão com o joelho, o queixo e a palma da mão. Seu primeiro pensamento é em Pfeifer, de estar imobilizado, incapaz de continuar, incapaz de salvar a si mesmo ou a aos outros, mas ele é capaz de se levantar. Da escuridão, em algum lugar, ouve-se uma tosse, um gorgolejo. O macaco, sem dúvida, provando do fruto de seu trabalho. S. manca, anda e corre. Sem ossos quebrados. Dor e nada mais. E a dor o desperta plenamente para algo que ele deveria ter entendido completamente há muito tempo atrás: mais importante do que frustrar Vévoda, mais importante do que a preciosa história e a circulação da verdade, é Sola. O que é mais importante para ele é Sola. Sua história.
Ela já sabe disso? Deveria saber.
Uma nota do apito dela, mas uma que ele reconhece apenas como a primeira sílaba de uma chamada mais longa. Sem o resto, seu significado é impreciso.
Ele chama de volta, uma nota, para reconhecimento. Eu posso te ouvir. Implicitamente, ele espera, significa: eu estou chegando. Eu estarei lá em breve. Faça o que for preciso para se manter segura. Ele não pode mais esconder sua posição, de qualquer forma, não com o barulho do macaco, o que importa é a sua mensagem, ele cobrir a distância até ela por meio da escuridão.
Mais profundamente na descida retorcida, há vozes, várias masculinas, e a dela. Para frente, enquanto em algum lugar atrás dele, em algum lugar nas adegas onde, também, a não pode alcançar, o macaco destrói e, S. imagina, se lança bêbado através de sua destruição.
Vévoda saúda seus convidados, monarcas depostos que com a sua ajuda retomarão seu governo dentro de um ano. Um marido e mulher. Pessoas frívolas, mas bem capitalizadas, e parecem estar se divertindo em meio a essa cena inesperadamente dramática. Eles nunca experimentaram um desafio tão direto, uma ameaça física. Nem ele, é claro, mas seus Agentes sim, que é o que importa. Essa primeira impressão o deixou ambivalente.
A mulher bebe enquanto o marido ajuda o Agente a completar os arranjos. “Você tem uma bela coleção”, ela diz.
“O vinho os atrai”, Vévoda diz. Eles levantam os copos um para o outro, celebrando seu entendimento.
O marido se levanta, mancha o seu colete com um lenço. Limpa a testa. Franzindo para a faixa azul-escuro que aparece.
O Agente endireita o chapéu. A resistência o tirou do lugar por um grau. A próxima vez que o apito toca, Vévoda acena para ele, mandando-o fazer o seu trabalho.
As vozes agora soam conversacionais. O silêncio o preocuparia, mas ouvir a calma deles é aterrorizante. O som de um Agente se aproximando é meramente chato, pois requer sua quietude. Ele se agacha à sombra de um barril na parte mais escura da passagem, a meio caminho entre a luz de um lado e a luz do outro. Esses são os passos de um homem que anda destemido, que é certo de que vai se dar melhor do que qualquer oposição que ele encontrar. S. retira sua faca da bainha. Ele espera que o Agente acelere seu ritmo. Sola é tudo o que importa.
Seu nariz se enche com o rico e fedorento cheiro de pêlo sujo ensopado no líquido azul-escuro. Ele vira a cabeça e encontra o macaco lá, ao nível dos olhos. Ele abre a boca, mas não faz nenhum som, como se soubesse melhor. Sua respiração, apesar do vinho cobrir sua boca, é o mau cheiro da decadência. Mas lá, nas sombras, o macaco se senta, e S. tem pouca escolha senão sentar-se silenciosamente ao lado dele e ouvir aquelas vozes à frente. Onde está a raiva, o som do confronto e da luta? O até mesmo do triunfo?
O Agente passa por ele, com sobretudo e fedora. Ele é um homem jovem, alto e atlético, todo confiante e com o queixo levantado. Mas o que lhe falta é cuidado, e S. o despacha antes mesmo que o Agente percebesse que estava em perigo.
Enquanto o corpo do homem treme em seu fim, quando a vida se escorrega na terra, S. não faz nada além de limpar sua lâmina. No momento seguinte, o Agente não é nada, e S. permanece-o que? Uma fúria? Um propósito? Um fim adequado?
S. segue em frente.
No meio da escuridão: uma dispersão de notas assobiadas, como se fossem lançadas descuidadamente ao vento. Não é um sinal que ele entende. Não é a linguagem deles.
A legítima princesa ri baixinho para si mesma. O que é divertido, estar cheia dos mais belos vinhos e se afastando calmamente como um canário!
Mas seu anfitrião aparece de repente. Ele é um homem pequeno e encantador, vestido de forma imaculada, e com aqueles cabelos branquíssimos, as pontas do bigode vibrando para ela quando ele oferece um sorriso malicioso! Ele é o anfitrião deles e, como tal, seu desconforto é ser perfeitamente franco sobre a coisa toda, mais do que um pouco imprudente. Ela espera que não piore e se torne rude. Ela não quer gostar do homem. Ele será extraordinariamente útil para eles, e ela não gostaria de se sentir em dívida com uma pessoa rude. E agora, uma linda pistola na mão dele! Acenando!
“Meu Deus”, ela diz baixinho para o marido. “De onde saiu aquilo?.”
O marido dela não responde. Ela não esperava que ele fizesse isso. Ele não desviou o olhar das prateleiras desde que terminou de ajudar o Agente naquela tarefa mais excitante. É compreensível, ela supõe, mas ainda é um pouco rude, mesmo pra ele.
Para frente.
O macaco corre junto com ele, tão perto ao ponto de estar quase debaixo dos pés, mas eles não se embaraçam, nem sequer se tocam. Os dois podem muito bem ser apenas um.
Eles cometem erros ao seguirem a voz – agora é apenas uma voz, e S. tem certeza que é a voz de Vévoda. Eles seguem caminhos que terminam em becos sem saída, hesitam em bifurcações antes de escolher incorretamente e ter que voltar atrás. S. se ressente do macaco por não ter um senso de direção animal mais afinado. Ele imagina – mesmo enquanto corre, mesmo enquanto se esforça para se fixar na localização da voz – a vida que ele e Sola podem esperar quando eles retornarem para a superfície, o vinho derramado, seu trabalho completo. Ele imagina os dois embarcado no navio, as expressões de admiração da tripulação, abrindo-se para a passagem do pirata, e deixando que o vento os leve livremente pelos oceanos. Ele mantém essa visão com um cenário perfeito: um céu alaranjado, quase tímido, ao entardecer; uma forte brisa morna enchendo as velas; seu rastro embranquecendo a água atrás deles, sempre e para sempre marcando onde eles estiveram, mas nunca precisarão voltar novamente. Isto é o que ele espera, se eles puderem encontrá-la a tempo.
Mas, ao se acalmar em sua visão, ele a corrompe: de pé, com ela, naquele navio imaginário, o pavor cresce dentro dele. O sol, o vento – nem um nem outro, nada disso pode derrotar o pavor que surge quando ele percebe que aquelas águas estão minadas. Ele sabe disso, de alguma forma, sabe que é loucura fingir que estão seguros, que eles são qualquer coisa, menos condenados. Não vai demorar muito para que eles atinjam uma. O mais habilidoso dos pilotos não conseguiria orientá-los. Esses dispositivos, um dos quais salvou sua vida uma era atrás, vai matá-lo, e vai matá-lo no exato momento em que ele mais vai querer viver.
Seu hospedeiro engatilha a arma. Uma arma tão potente, mas pequena e discreta! Sua grosseria à parte, tudo é muito emocionante.
A física do som coopera, finalmente, e quando o som do gatilho armado chega aos ouvidos de S., ele sabe exatamente de onde o som veio. Ele pode ver, à frente, o caminho se dividindo em um T; quando ele e o macaco virarem a esquina para a esquerda, ele vão encontrar o homem segurando a pistola. É tarde demais, e ele está muito perto, para se preocupar com a furtividade. Sua vantagem vai estar em sua velocidade, em sua ferocidade, em sua necessidade absoluta de encontrá-la. O macaco grita, soa como um barulho de guerra. S. aperta o cabo úmido da faca e eles viram a esquina.
S. vê a pistola, acenando erraticamente enquanto é brandida; ele nota quatro barris de vinho arrumados a esmo em um canto, é assustador o quão bem iluminado é o cômodo, a intuição diz que a sala é um retângulo e que ele e Vévoda – este homem de cabelos e barbas brancas, pequeno e ansioso – vão enfrentar um ao outro no único ponto de entrada ou saída. Ele se arremessa contra o homem com a arma de fogo, notando duas outras pessoas no espaço e um aparador na parede oposta e sabendo que se Vévoda conseguir atirar, a bala não vai o atingir, porque Vévoda não tem treinamento nem coragem; ele fabrica armas, mas nunca teve motivos para usá-las.
Só depois que a pistola dispara e a dor atinge sua clavícula é que ele percebe o que o seu reconhecimento instantâneo não revelou. Onde ela está?
A bala vai além, levando sua pele e seu sangue. Ela ricocheteia em uma parede de terra, perfura um barril e se aloja no líquido dentro dele.
A faca desliza de sua mão apertada. Faz barulho no chão, uma superfície de pedra lisa e polida.
A pistola faz o mesmo.
Eles caem como um só, S. acima e Vévoda preso embaixo. Perto, tão perto quanto a pequena estrutura lutando embaixo dele, uma dor atravessando seu tronco e a sala incandescente. S. ouve um grunhido furioso vindo da garganta de alguém, embora ele não saiba se é de Vévoda ou dele mesmo.
O macaco aparece ao lado deles, gritando, levantando-se com uma pedra na mão. S. vê claramente o rosto do animal, seu pequeno queixo se estendendo orgulhoso, sua boca simples e larga, toda a força em seu corpo pronta para florescer. O tempo avança quando o macaco desce com a pedra. S. vira a cabeça e ouve os sons da rocha contra osso, e do osso cedendo. Uma, duas vezes, várias outras vezes mais. E assim por diante.
S. rola para o lado, enxuga o rosto, espera até que a respiração retorne.
Sola. ele não a viu e ele não a ouviu porque ela não está mais lá. Eles não vão ascender para a luz do sol juntos, eles não vão embarcar juntos no navio. Ele nunca vai ter motivo para temer onde as minas podem estar escondidas na água; ele nunca vai ter a fortuna da preocupação.
Ele se levanta, se mexe. Há pinturas nas paredes aqui. Há uma mesa baixa com um decantador e cristal. Do outro lado da sala, há uma mulher em um vestido roxo, puxando a mão do homem ao lado dela.
“Bem”, diz a mulher. “Eu espero que você não…”, ela não termina.
S. a encara, demorando a entender o que ela quis dizer. Ela puxa o homem junto a ela, passando por S. e o macaco e os restos de Vévoda. Ela está usando o apito de Sola em seu pescoço, mas S. não consegue pensar em uma razão para pará-los, e assim eles desaparecem no labirinto do porão. Ele se move em direção ao espaço onde eles estavam, na frente do suporte dos barris, porque agora ele vê que eles não estão todos vazios. O suporte abriga três corpos, cada um com a face para cima, cada um com os pés na parede e as cabeças inclinadas para trás, sobre a borda. A gravidade arqueia as gargantas. Os rostos retorcidos e respingados, riscados em azul-escuro. Na pedra lisa estão os respingos, os fluxos e as finas partículas assentadas de uma névoa azul-escura. Em uma parede adjacente, um borrifo de azul-escuro, padronizado como um tiro de espingarda. Ele sabe – sem sequer registrar os trajes de empregados – que o corpo mais próximo é o de Sola.
O vinho negro ainda está pingando de sua boca. Seus lábios ainda úmidos.
As vozes se levantam novamente, dobrando-o, mas ele se endireita e se aproxima, com uma das mãos presas na ferida do ombro. Os rostos estão escuros demais para que ele enxergue as feições até que ele esteja perto. Sola. Khatef-Zelh, tão jovem, do mesmo jeito de quando ele a conheceu em El-H___. Corbeau, como ela estava no cais, nas colinas, na caverna, no ar. E agora, ele vê, um quarto corpo, pequeno, aninhado entre a menina e Corbeau: um recém-nascido. O bebê do Território, ele percebe, enfim, embora seja difícil dizer.
Sola não deveria estar aqui. Nenhuma delas deveria estar aqui. Mas elas estão todas aqui e isso porque ele falhou com elas. Todas elas.
O barulho em sua cabeça: todas as vozes de todas as cidades, todos os gritos e a estática dos céus sobre o mar, todo o estrondo das bombas caindo na terra. Todo o barulho dessa vida de fracassos, uma vida que nunca foi a sua própria, para começar.
Você joga sua pedra para longe, vê ela girando e quicando pelo chão. Você estica seus membros rígidos. Os olhos semi-cerrados do homem estão abertos, mas você ignora isso. Você sabe quando uma coisa está morta. Porque você pensaria em olhar para um olho morto?
Do outro lado da sala, o homem transparente ergue as mãos e as pressiona sobre as orelhas, enquanto a ferida no ombro dele sangra livremente. Ele treme. Ele se sacode com tanta força que você pode ver milhares de contornos masculinos borrados se agitando dentro dele. Ele cai em um joelho, no outro, no chão.
Seus sentidos são aguçados – você é feito de sentidos – e do outro lado da sala você consegue ouvir as vozes na cabeça dele. Tantas vozes, desesperadas, enfurecidas, aflitas, sem esperança, e todas elas são dele.
Mil contornos se agitam, mas o homem permanece parado. Sua roupa é toda sangue e vinho negro. Você chama por ele, mas ele não se move.
A quietude dele te perturba. Por que sentar com os mortos?
Ocorre a você pela primeira vez que esse homem nunca soube que ele é transparente. Mas por que você deveria ter percebido isso antes? Como uma criatura poderia falhar em entender uma coisa tão fundamental sobre si mesma? Você conheceu o homem transparente há muito tempo, e isso sempre foi o que ele é.
Mas enquanto você o assiste, caído, os milhares de contornos se agitando, você consegue sentir o espaço dentro dele escurecendo, engrossando.
Você é velho. Você viu de tudo. Você não viu isso.
O homem agora tem apenas dois desejos. Seu perfume os leva até você. Ele quer pegar a faca e esculpir uma forma estranha na cara fechada do outro homem, ou talvez na pele pálida e com pelos brancos de seu ventre, mas ele não acha que é suficiente. O seu segundo desejo é acender um fósforo. Isso te alarma. Você está encharcado no vinho negro, e você sabe do destino. É instintivo.
Você se estica novamente, e se aproxima. Cutuca o homem com seu dedo. Grita em seu ouvido. Levante-se, você diz para ele. Se mova. Ele não conhece a sua língua, mas ele sabe o significado. Se mova. Levante-se. Ande, porque isso deve ser feito. Você não fica no subsolo com os mortos. Você sobe, você emerge, você respira. Então você encontra o caminho para a água. Onde há água, há um navio, então é para onde você vai.
Você o belisca, bate na face dele. Você pega o braço dele que não está sangrando e puxa. Ande, homem, ande.
Mas ele não se move, não fica em pé, não anda, então você se senta, você se acalma, e você pensa. Você se pergunta se, todo este tempo, se houve algo essencial sobre ele que você falhou em entender.
Post original da Jen





