Eu acredito que depois do primeiro choro assim que nasci, cantei. E fiquei cantando até pronunciar minha primeira palavra.
Cresci numa família que não era muito musical e quando ouviam algo, eram músicas bregas.
Herdei do meu pai, o gosto por música clássica, ópera e tudo que ligava a artes: teatro, cinema, artes plásticas, bem como uma queda por boxe.
Em casa não tínhamos dinheiro sobrando e para ter meu primeiro aparelho de som daqueles de duas fitas + disco e rádio, demorou.
Quando ganhei meu aparelho de som, uma dúvida cruel surgiu: quais cd's eu compraria? O que era uma música boa? Não estava acostumada.
Não tinha a menor idéia e também, ninguém para me direcionar.
Saí pela Teodoro Sampaio e, passando numa banca de jornal, me deparei com a Revista Bizz, uma capa vermelha e preta, mostrando os nomes mais badalados da época, junto com ela, um cd que não fazia a mínima ideia se era bom ou não.
Olhei os nomes: Ella Fitzgerald, The Platters, Johnny Rivers, Nina Simone, The Marcels... Olhei e pensei: bom é uma revista de Rock, com esses nomes, impossível ser brega. Levei.
Ali começou minha paixão por música boa.
Num outro momento, na verdade uma semana depois, querendo aumentar minha discografia, em uma das lojas da mesma Teodoro, fui ali, na parte do Rock e totalmente perdida, fui buscando o que comprar.
Confesso que alguns já conhecia e sabia serem bons. Pronto, lá ia eu na saga para conhecer coisa boa, sem nenhuma diretriz (a vida fica bem mais complicada assim) mas, as vezes damos sorte e nos saímos bem.
Eu sabia o tipo de rock que gostava, mas não tinha mínima idéia de qual seria, não poderia ser heavy metal, nem hard rock, era alguma coisa mais tranquila.
Fui na sorte.
Whitesnake, Gênesis (que já conhecia Phill Collins), Marillion era um nome bonito e tinha uma música imensa e bem legal. Yes já conhecia e amava o nome, Rush parecia ter nome de rock pesado, mas arrisquei. Pink Floyd, conhecia e gostava, mas algumas músicas me cansavam, então se esses estavam perto, os outros deveriam ter o mesmo estilo.
Encontrei numa das divisões, um cara com um trompete nas mãos, gostei. Na capa, Miles Davis. The Who me lembrava Doctor Who que lembrei de alguma camiseta que queria comprar. Levei.
Porque lembrei de tudo isso?
A vida muitas vezes não traz ninguém para segurar sua mão ou te dizer o que fazer, na maioria das vezes você está sozinho e tem que se virar, contar com sua intuição ou algum bom gosto que carrega dentro si. Os tombos com a música brega, fazem parte da vida, quem nunca bateu o pézinho ou tentou chacoalhar o esqueleto com musica assim?
A vida é um tiro no escuro embalado a algum som.
Às vezes dá errado em outras, acertamos, tentando acertar o som de um bom Rock'n Roll.

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